sábado, 11 de janeiro de 2025

Fernanda Torres, o Itáu e a Ditadura * Alexander Ceci/SP

Fernanda Torres, o Itáu e a Ditadura
Alexander Ceci

Parabéns a Fernanda Torres pela premiação em função do excelente filme "Ainda estou aqui"! Mas, sendo "estraga prazeres", lembro: Walter Salles, o diretor do filme, é herdeiro no Itaú-Unibanco, sendo por isso o cineasta mais rico do mundo.

Voltando na história, o banco Itaú foi um dos principais financiadores da "caixinha" da Operação Bandeirantes (OBAN), que tinha também a Federação da Indústria do Estado de São Paulo (FIESP) e como articuladores políticos Paulo Salim Maluf e Delfim Netto. O famigerado criminoso e torturador, o delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, trabalhava para a OBAN.

A OBAN matou Carlos Marighella, em 04 de novembro de 1969, através de Fleury. A OBAN também fez surgir o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). O DOI-CODI do Rio de Janeiro funcionava na Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca.

Após saber que o ex-deputado federal cassado pela ditadura Rubens Paiva teria um encontro com Carlos Alberto Muniz da direção do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), o DOI-CODI o prendeu, assim como a sua esposa Eunice e uma das suas filhas, na PE da Tijuca (ler "Cachorros", Marcelo Godoy, que relata a infiltração de agentes da repressão na esquerda da época).

Lá Rubens Paiva foi barbaramente torturado e assassinado e o seu corpo desapareceria até hoje. Já o Itaú, que em 1965, ocupava a 150ª posição no ranking dos bancos brasileiros, depois de dez anos de regime militar, em 1975, se tornou o 2° maior banco do país.

Seu dono, Olavo Setúbal, conspirador do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas ) e do IPES (Instituto de Pesquisa de Estudos Sociais) antes do Golpe de 1964, depois virou prefeito biônico da maior capital brasileira, São Paulo, em 1975, indicado que foi pela ditadura.

Já Walther Moreira Salles, pai do cineasta Walter, foi por duas vezes embaixador brasileiro nos EUA e ministro da Fazenda no governo João Goulart. Ao contrário da grande maioria dos empresários ligado a Jango, Walther pai sobreviveu ao golpe, pois era unanimidade entre os golpistas como também nos EUA, mentor da derrubada de Jango. Walther era amigo de Rockfeller e de Lincoln Gordon, o embaixador ianque no Brasil e conspirador de primeira linha do golpe. Delfim assegurava que qualquer cisma contra Walther era besteira.

Diga-se de passagem, os dois principais ganhadores da reforma bancária imposta pelos banqueiros em 1965 foram Olavo Setúbal e Walther Moreira Salles. Tanto que através do seu banco de médio porte, em 1966, o último criou o Banco de Investimento do Brasil, com sócios americanos. E passou a comprar diversos bancos até adotar o nome de UNIBANCO, em 1974. Em 1991, Walther pai comprou parte do Nacional, propriedade da família Magalhães Pinto, cujo patriarca foi governador de Minas Gerais e foi outro golpista chefe em 1964. Em 2008, Itaú e Unibanco formaram um só banco, mas as suas digitais estavam nas duas décadas de triste memória do nosso país.

O filme "Ainda estou aqui", apesar disso tudo, não perde a sua extrema validade, principalmente nesse momento de bolsonarismo; de Trump; de Javier Milei; do genocida Benjamin Netanyahu; do crescimento da extrema-direita e por denunciar um crime hediondo, que dá impulso para denúncia de outros tantos crimes hediondos feitos pela ditadura, cujos corpos não apareceram como o de Rubens Paiva.

Mas, não deixa de ser bem irônico e típico dessa democracia dos ricos e dos bancos, ver instituições que estiveram por detrás da criminosa "Revolução de 1964" (como o Itaú ainda chamava o Golpe na sua agenda de... 2014) estarem no DNA da fortuna do diretor que produziu "Ainda estou aqui". Em resumo: um banqueiro "sensível" vira ícone nacional. Só falta ter trio elétrico para ele. Tira o tubo!

Por fim, os festejos com a premiação do filme feitos pela mafiosa Rede Globo (que cresceu o seu império com a ajuda das botas dos milicos, e que defendeu a ditadura até o último momento, procurando, inclusive, esconder a Campanha das Diretas em 1984) são uma cusparada na cara daqueles que preservam a memória dos 21 anos do sanguinário regime militar. 
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

A Servidão Moderna * Jean-François Brient / Youtube

A SERVIDÃO MODERNA
Da série Filmes & Documentários Revolucionários

Título Original: A Servidão Moderna

Sinopse: 

“A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra.

Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais.,,,

Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado, se demonstram estar suficientemente domados.

Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir. Para que esta tragédia absurda possa ter lugar, foi necessário tirar desta classe a consciência de sua exploração e de sua alienação. Aí está a estranha modernidade de nossa época.

Contrariamente aos escravos da antiguidade, aos servos da Idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje em dia frente a uma classe totalmente escravizada, só que não sabe, ou melhor, não quer saber. Eles ignoram o que deveria ser a única e legítima reação dos oprimidos e explorados.

Aceitam ordeiramente sem discutir a vida lamentável que as classes dominantes planejaram e seguem planejando para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça.”

COMENTÁRIO

Um bom documentário, crítico, denuncia a alienação que se recrudesceu neste período do capitalismo quando foi feito o filme, relativamente recente.

 As críticas, as sacadas do autor quanto às formas de dominação e alienação contemporâneas, são muito boas mesmo. A crítica à mercadoria e sua fetichisação estranhada, são muito sugestivas. 

Suas limitações se dão, quando claramente vemos uma certa desilusão em relação ao proletariado e suas possibilidades de alcançar o comunismo. Na verdade, a limitação maior do autor vem no final, quando ele propõe uma saída utópica de tipo anarquista, para superar o capitalismo, que ele chama no filme, de sociedade mercantil. 

Mas no todo, apesar das sérias lacunas, vale a pena assistir, pois trás boas críticas e valiosas reflexões.

Roberto Bergoci - SP
JEAN-FRANÇOIS BRIENT/YOUTUBE

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

OSWALD DE ANDRADE VIROU DOMÍNIO PÚBLICO * Edison Veiga/Deutsche Welle

OSWALD DE ANDRADE VIROU DOMÍNIO PÚBLICO

"Agitador" e "genial": o legado de Oswald de Andrade, que entra em domínio público em 2025. O legado de Oswald de Andrade, que virou domínio público.

Especialistas avaliam trajetória e escritos do modernista morto há 70 anos, e destacam obras essenciais para conhecê-lo. Em fevereiro, gigante da literatura nacional ganha nova biografia.

"Este quadro é sensacional. É o homem plantado na terra", disse Oswald de Andrade (1890-1954) tão logo ganhou, de aniversário, uma tela de Tarsila do Amaral (1886-1973), com quem era casado. Depois, com a ajuda de um dicionário de tupi, encontraram os termos "aba", homem, e "poru", que come.

Assim foi batizado aquele que se tornaria o mais importante quadro da história da arte brasileira, "Abaporu". Esta história, contada por Tarsilinha, sobrinha-neta da artista, no livro Abaporu: Uma obra de amor, ilustra bem a ebulição intelectual de Oswald, uma das mentes criadoras por trás da Semana de Arte Moderna de 1922.

O poeta, escritor, ensaísta, dramaturgo e grande agitador cultural Oswald de Andrade terá sua obra em domínio público a partir de janeiro — pela legislação brasileira, que prevê o fim da incidência de direitos autorais a partir do ano seguinte ao 70º aniversário de morte do autor. Com isso, mais editoras devem republicá-lo e novos holofotes devem ser lançados sobre sua produção.

Será uma oportunidade para que o trabalho dele seja revisitado — muitas vezes sua vida, movimentada e cheia de amores, costuma ser mais destacada do que sua obra.

"[Ele] era um autor essencialmente confessional, que transfigurava a própria biografia em termos de ficção e poesia", analisa o jornalista e biógrafo Lira Neto, que lança em fevereiro Oswald de Andrade: Mau Selvagem. "Impossível tentar compreender sua obra desligada de sua própria existência. E vice-versa."

Vida "maior" que a obra?

O sociólogo e crítico Antonio Candido (1918-2017) dizia que a biografia de Oswald havia sido tão importante quanto sua obra. "Mas, na verdade, se conhece muito pouco de sua trajetória", afirma Lira Neto. "Muito se comenta sobre a Semana de 22, que para mim é um episódio eventual, quase marginal, diante do turbilhão que foi a vida dele."

Há os notórios romances, principalmente os casamentos com Tarsila e, depois, a escritora e militante comunista Pagu (1910-1962) — mas também mulheres como "Landa, Daisy, Pilar Ferrer, Julieta Barbara, Maria Antonieta d'Alkmin", enumera o biógrafo.

"Quase não se fala do Oswald pensador, autor de teses originais e atualíssimas sobre a cultura. Quase não se fala do Oswald jornalista, agitador permanente. Quase não se fala do Oswald na intimidade, feroz e lírico, ateu e crente em Nossa Senhora, anjo romântico e incorrigível devasso", completa.

Em sua biografia, Lira Neto promete não fazer julgamentos morais, apenas apresentar "o homem genial que foi Oswald, com todas as suas ambivalências: virtudes e vícios, qualidades e defeitos, acertos e erros".

"O inconformismo intelectual e o espírito de rebelião fez com que, por vezes, Oswald tomasse atitudes impensadas e praticasse gestos de exacerbada violência contra amigos próximos. Incapaz de exercer a monogamia, ao mesmo tempo ciumento ao extremo, magoou a grande maioria das mulheres com quem viveu", destaca.

Para especialistas, essa conjunção entre vida e obra é que fez de Oswald um gigante da literatura nacional. "A vida dele foi também uma obra, teve plástica, estética, natureza artística", diz o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). "Ele foi um homem-arte, como aqueles homens-sanduíches que carregam no corpo as mensagens. Ele foi um homem-reclame, um homem-sanduíche do modernismo."

Autora do livro Semana de 22: Entre Vaias e Aplausos, a jornalista e escritora Marcia Camargos diz que Oswald "criou um personagem um pouco folclórico", pela sua "figura cativante, meio histriônica, de um glutão, de alguém sem meias palavras".

"Mas eu não acredito que isso seja maior do que sua própria obra e nem que abafe parte. Um está imbricado no outro e ele era realmente um artista, um escritor extremamente criativo", avalia, frisando que ele respondia às questões de seu tempo "de forma genial". "Não penso que sua personalidade tenha se imposto e obscurecido, feito sombra à sua obra."

Livros de destaque

Mas se o domínio público é a oportunidade de novas edições, os especialistas têm também suas recomendações sobre quais obras merecem ganhar mais espaço nas prateleiras — e quais funcionam como porta de entrada para que um leitor mergulhe na literatura oswaldiana.

Lira Neto destaca de forma geral os poemas, "em especial os do maravilhoso Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade, ilustrados por ele mesmo, e os do volume Poesias Reunidas de O. Andrade, trocadilho brincalhão com as Indústrias Reunidas de F. Matarazzo [complexo fabril que marcou época em São Paulo no início do século passado]". "O uso do coloquialismo na poesia, o poema-pílula, o poema-piada, tudo aquilo me parece profundamente contemporâneo", frisa.

Autora do livro Rupturas e Desdobramentos: Reverberações Críticas da Semana de Arte Moderna e professora na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maria Lúcia Outeiro Fernandes situa a obra de Oswald como "um dos maiores legados do modernismo brasileiro, pois representa a concretização das principais propostas de 22".

Ela destaca, de forma geral, os livros de poesia da produção oswaldiana, "especialmente o Poesia Pau-Brasil". "Das narrativas, o livro que apresenta maior afinidade com os leitores contemporâneos me parece ser Memórias Sentimentais de João Miramar", diz a professora. Este último é classificado pela jornalista Camargos como "imbatível".

O poeta e tradutor André Capilé, professor de literatura brasileira na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), destaca outras duas facetas de Oswald que mereceriam ser revisitadas editorialmente.

"Talvez, muito talvez, nos falte uma reunião crítica da obra dramatúrgica [dele]. Edições reunidas e anotadas que deem maior vulto a essa dimensão autoral do autor, que apesar das revisões e montagens de O Rei da Vela, na presença viva de Zé Celso [Martinez Corrêa (1937-2023)], terem dado novo vigor e visibilidade à dramaturgia oswaldiana, talvez fosse o caso de uma nova mirada diante das demais peças", comenta ele.

O outro gênero trazido por Capilé é a produção ensaística. "Os textos reunidos de jornais e conferências que encontramos em Ponta de Lança, com suas polêmicas e modos de refletir, por contonar aspectos de seu tempo e por terem sempre uma linguagem ágil e ácida, definitivamente nos mostram não só como Oswald pensava a cultura, mas também demonstram como sua composição textual flagrava o mundo", explica.

Sanches Neto mira no próprio autor. Neste sentido, vê o autobiográfico Um Homem Sem Profissão como inovador e precursor do gênero de autoficção, tão em voga na literatura contemporânea. "Para mim, é o livro mais importante publicado por ele", comenta.

O escritor também considera essencial a obra Diário Confessional, reunião de textos que o autor registrou em diários, publicada em livro em 2022. "Ele solta todo o seu fel, todo o seu rancor e, ao mesmo tempo, toda a sua poesia na avaliação de seus contemporâneos", afirma Sanches Neto.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

CINEMA E REVOLUÇÃO * Arquivo Marxista da Internet/AMI

CINEMA E REVOLUÇÃO
Nada significa mais, pra nós, Marxistas Comunistas Revolucionários, como símbolo do cinema expressionista, do que o filme POTEMKIM. SM Einsenstein nunca mais foi o mesmo.

Por isso, queremos oferecer aos nossos amigos, leitores, simpatizantes e militantes da causa comunista um verdadeiro catálogo de filmes engajados nessa luta:

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

ENTREVISTA GABRIEL GARCIA MARQUEZ * Fundação Claudino Silva/FCS

ENTREVISTA GABRIEL GARCIA MARQUEZ
GABRIEL GARCIA MARQUEZ - COLÔMBIA

Cem Anos de Solidão (a série)


Felipe Andrés Pérez Cabrera

Você já viu a série Cem Anos de Solidão? A produção cinematográfica foi dirigida por Rodrigo García (filho de Gabriel García Márquez), Laura Moreno Ortega e Alex García López. O roteiro é uma adaptação do romance do escritor Gabriel García Márquez com o mesmo nome da série; Acrescento que este romance é considerado um dos melhores da história da humanidade. Os roteiristas encarregados de adaptar o romance às telas foram María Camila Arias, Camila Bruges, Albatroz González, Natalia Santa e José Rivera. O elenco de atores, em sua maioria colombianos, apenas as atuações de estrangeiros na novela são realizadas por eles de acordo com sua nacionalidade; por exemplo, o cigano espanhol ou o professor de música italiano da peça. A produção é da destacada produtora colombiana de séries e filmes Dynamo Producciones, que contou com financiamento, colaboração e distribuição da Netflix.

Não se trata apenas de conhecer o conteúdo de um livro em si, a série se transforma em um verdadeiro espetáculo de cores, enredo, paisagens mágicas, história, shows e entretenimento do mais alto calibre. Recomendo mesmo que seja para passar momentos agradáveis ​​em nossas vidas; Sem dúvida é uma série que homenageia o livro de Gabo, aproveitando a diversão de seus capítulos, trazendo consigo as mensagens da moral deixada pela obra escrita, mergulhando nas profundezas da nossa rica cultura caribenha. Só para curtir a vida, é bom ver. Recomendado.

PS: Viva a Colômbia e seu povo, que tem enormes capacidades para se destacar em qualquer circunstância da vida! A Colômbia, pátria fundada pelos nossos antepassados, ainda goza de ser um poderoso império cultural da nossa América Latina e das Caraíbas; Devemos continuar a trabalhar pela unidade num único país, tal como os nossos antepassados ​​nos deixaram.

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sábado, 21 de dezembro de 2024

Festival Internacional de Cinema do Cairo presta homenagem aos palestinos em Gaza * MPR21

Festival Internacional de Cinema do Cairo presta homenagem aos palestinos em Gaza


O Festival Internacional de Cinema do Cairo, presidido pelo cineasta egípcio Hussein Fahmy, é um dos mais antigos do mundo árabe e da África. É o único da região árabe e africana inscrito na categoria A da Federação Internacional de Produtores de Cinema.

É também o evento cinematográfico árabe e mundial mais focado no apoio à causa palestina. Embora o Egipto tenha se rendido a Israel em 1979, os intelectuais e cineastas egípcios recusaram unanimemente qualquer normalização com o Estado que continua a ocupar a Palestina e os territórios libaneses e sírios. Há três décadas, o ex-presidente do Festival, o escritor Saad Eddin Wahba, liderou a mobilização de cineastas egípcios contra a normalização do Estado Sionista, ao proibir a participação de filmes israelitas no Festival. O seu sucessor, Hussein Fahmy, foi ainda mais longe ao cancelar completamente a edição anterior em solidariedade com o povo de Gaza, vítima de um genocídio atroz, de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade.

Esta edição contou com 190 filmes de 72 países e duas séries de televisão, incluindo 16 exibições no tapete vermelho, 37 estreias mundiais, 8 estreias internacionais e 119 exibições para a região do Médio Oriente e África.

A grande surpresa, que não é exatamente uma surpresa quando conhecemos o lugar que a causa palestina ocupa no coração do povo árabe, foi a excepcional participação do público, que lotou as salas durante as exibições dos filmes palestinos. Um árabe nunca pode esquecer o martírio do povo palestiniano, a limpeza étnica, as repetidas guerras de extermínio que atingiram a Faixa de Gaza, a destruição maciça e sistemática de casas e a fome planeada da população.

Este ano o Festival decidiu retomar a sua actividade para melhor expressar a sua solidariedade para com a Palestina, tornando-se uma plataforma de denúncia do genocídio ao ritmo de uma “dabka”, a dança palestiniana, acompanhada pela famosa canção Ala dini, interpretada por um folclórico grupo de Gaza vestindo o “keffiyeh”, o lenço preto e branco, emblema dos palestinos em luta desde a revolta árabe de 1936-1939. “O sangue que corre em minhas veias é palestino”, diz a letra.

Outro gesto de solidariedade foi a criação de um emblema metálico no formato do mapa histórico da Palestina com as cores da bandeira palestina. O distintivo foi distribuído a todos os participantes do Festival e usado pelo próprio Presidente Hussein Fahmy.

A agressão contra a Síria ainda não tinha começado e o Festival começou a expressar solidariedade com a Palestina e o povo libanês. Seu fechamento foi semelhante. O único segmento musical da cerimónia foi o do grupo “Watan Al Funun” de Gaza com a voz do falecido poeta palestiniano Mahmoud Darwish, recitando versos do seu poema “Nesta terra, a vida vale a pena ser vivida”.

No seu discurso de abertura, Fahmy explicou que a suspensão do festival até 2023 foi um gesto de solidariedade com a causa palestiniana. A decisão de retomar o festival este ano, em 2024, surgiu da mesma vontade de denunciar o genocídio em Gaza. “Durante as minhas visitas a festivais internacionais nos últimos anos percebi que muitos deles, como os Festivais de Berlim e Veneza, tratam de temas políticos e centram-se na Guerra da Ucrânia. No Festival Internacional de Cinema do Cairo também temos o direito de falar sobre as nossas causas e, principalmente, a causa do povo palestino e libanês, atacado de forma selvagem e odiosa pelos soldados israelenses”, disse ele em entrevista.

“Eu não teria decidido organizar o Festival este ano se não tivesse visto que temos o direito de defender as nossas justas causas nacionais através da nossa plataforma, de declarar a nossa solidariedade e de transformá-la numa oportunidade para destacar o sofrimento da Palestina. e o povo libanês”, acrescentou.

Fahmy concluiu destacando que “a arte é capaz de contar histórias de pessoas cujas vidas valem a pena”, agradecendo ao Ministro da Cultura egípcio que esteve presente nos eventos de abertura e encerramento.

“Somos os guardiões do cinema porque é a nossa consciência”, disse o realizador egípcio Yousry Nasrallah, galardoado com o prémio Pirâmide de Ouro por todo o seu trabalho. Apreciando a distinção, Nasrallah destacou que “o cinema egípcio está melhor este ano em termos de receitas e participação em festivais internacionais”, e não saiu sem cumprimentar os seus colegas cineastas palestinianos, “que estão a passar por um duro teste existencial”.

'Sonhos de Passageiros', de Rashid Mashharawi

Para dar uma ideia realista da vida em Gaza antes do último genocídio, os organizadores decidiram exibir “From Ground Zero” durante todo o festival. Esta é uma série de 22 curtas-metragens dedicadas a Gaza e realizadas pelo cineasta palestino Rashid Masharawi. É um lembrete muito útil para ensinar como era a vida em Gaza à luz da guerra genocida contra a população palestiniana desarmada que não relaxou desde 7 de Outubro do ano passado, causando dezenas de milhares de mortes, principalmente mulheres, crianças e idosos. .

A série foi exibida com sucesso à margem do último Festival de Cannes deste ano, apesar do forte clima de repressão e censura imposto pelo lobby sionista na Europa contra qualquer manifestação de solidariedade à causa palestina.

Num outro gesto de apoio a Gaza e ao povo palestiniano, a direcção do festival escolheu a estreia de “Passenger Dreams”, outro filme de Mashharawi, para a cerimónia de abertura. É talvez um dos poucos que aborda a causa palestiniana longe de slogans e operações de guerrilha.

Foi recebido com entusiasmo e entusiasmo, principalmente por ser uma estreia mundial. O filme usa muito simbolismo e acompanha muitas das experiências de Masharawi. É sem dúvida um dos melhores trabalhos que realizou ao longo da sua carreira cinematográfica, que se estende por mais de três décadas.

O filme narra a viagem de Sami, de 12 anos, acompanhado pelo seu tio e primo mais velho, em busca da sua pomba perdida, através de um campo de refugiados na Cisjordânia e de várias cidades palestinas, incluindo Belém, a antiga Jerusalém e Haifa, destacando a difícil vida quotidiana dos palestinianos e o seu impacto na sua personalidade e nas suas relações consigo próprios e com os outros.

A Busca pelas Pombas Perdidas representa a busca da Palestina como pátria e da beleza do povo palestino, apesar da feiúra e da destruição que o rodeia. A determinação do realizador em filmar em Haifa, Belém e na Cidade Velha de Jerusalém, locais que simbolizam a antiga Palestina, expressa o desejo de redescobrir as raízes profundas dos palestinianos e apresentar uma linguagem cinematográfica diferente daquela que prevaleceu até agora no cinema palestiniano. .

Sem dúvida, este filme constitui um salto qualitativo, não só para o seu realizador, mas também para todos os filmes anteriores que abordam a questão palestiniana.
MOHAMMED ASSAF/DAMMI FALASTINI

sábado, 14 de dezembro de 2024

CENSURA E LIBERDADE ARTÍSTICA NO BRASIL * Nonada Jornalismo

CENSURA E LIBERDADE ARTÍSTICA NO BRASIL

Quem tem direito à liberdade artística no Brasil? Nos ajude a avaliar o cenário respondendo à pesquisaQuem tem acesso à liberdade artística no Brasil? Com apoio do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão da USP e da Funarte, o Nonada quer ouvir trabalhadores da cultura para entender o cenário atual.

O projeto visa identificar os principais tipos de violência sofridos, bem como existência de notícias falsas e de fatores sociais, de gênero e raça na incidência da perseguição aos artistas. Os resultados serão compilados e divulgados em um ebook.

Se você já sofreu ataques ou foi perseguido por sua atuação como pessoa fazedora de cultura ou não se sente segurança para trabalhar na área, participe! A pesquisa é rápida e a sua participação será muito importante.

OU AQUI
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

CULPABLES * ICAP/RESUMO LATINOAMERICANO

CULPABLES
Na primeira semana de dezembro estreia no Brasil o filme cubano "Culpables".

Pré-estreia no dia 5 de dezembro - 5°feira 18:45h na UNIPOP (Universidade Popular) Av. L2 norte - Q. 601 - Centro Cultural de Brasília. Entrada e estacionamento gratuitos.

A estreia vai acontecer no III Encontro Anti-imperialista de Solidariedade e Amizade entre os Povos.

Produzido pelo Resumen Latinoamericano com a colaboração do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), o filme, da jovem diretora Yaimí Ravelo, apresenta em uma hora uma síntese de intervenções de renomados juízes e promotores, além de testemunhas e amigos da Ilha, da Europa e dos Estados Unidos, em audiência realizada em Bruxelas em novembro de 2023.

O filme apresenta uma sugestiva combinação de imagens de declarações e testemunhos nas sessões e da população cubana que sofre todos os dias resistindo às duras consequências da política de asfixia econômica, criminosa e genocida, aplicada pelos governos dos EUA há mais de 60 anos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

DESCOLONIZANDO AS MENTALIDADES * GLAUBER ROCHA/BA

DESCOLONIZANDO AS MENTALIDADES
GLAUBER ROCHA
Uma Estética da Fome

Por Glauber Rocha

Dispensando a introdução informativa que se tem transformado na característica geral das discussões sobre América Latina, prefiro situar as relações entre nossa cultura e a cultura civilizada em termos menos reduzidos do que aqueles que, também, caracterizam a análise do observador europeu. Assim, enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como um sintoma trágico, mas apenas como um dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino.

Eis – fundamentalmente – a situação das artes no Brasil diante do mundo: até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais que vulgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da arte mas contaminam sobretudo a terreno geral do político. Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subdesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo; e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob as tardias heranças do mundo civilizado, heranças mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista. A América Latina (AL), inegavelmente, permanece colônia, e o que diferencia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais aprimorada do colonizador; e, além dos colonizadores de fato, as formas sutis daqueles que também sobre nós armam futuros botes. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores, sendo que uma libertação possível estará sempre em função de uma nova dependência.

Este condicionamento econômico e político nos levou ao raquitismo filosófico e à impotência, que, às vezes inconsciente, às vezes não, geram no primeiro caso a esterilidade e no segundo a histeria.

A esterilidade: aquelas obras encontradas fartamente em nossas artes, onde o autor se castra em exercícios formais que, todavia, não atingem a plena possessão de suas formas. O sonho frustrado da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente. Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos; livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes (que, sobretudo em São Paulo, provocaram inclusive falências). O mundo oficial encarregado das artes gerou exposições carnavalescas em vários festivais e bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, vários coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de Letras e Artes, júris de pintura e marchas culturais pelo país afora. Monstruosidades universitárias: as famosas revistas literárias, os concursos, os títulos.

A histeria: um capítulo mais complexo. A indignação social provoca discursos flamejantes. O primeiro sintoma é o anarquismo pornográfico que marca a poesia jovem até hoje (e a pintura). O segundo é uma redução política da arte que faz má política por excesso de sectarismo. O terceiro, e mais eficaz, é a procura de uma sistematização para a arte popular. Mas o engano de tudo isso é que nosso possível equilíbrio não resulta de um corpo orgânico, mas sim de um titânico e autodevastador esforço no sentido de superar a impotência: e, no resultado desta operação a fórceps, nós nos vemos frustrados, apenas nos limites inferiores do colonizador: e se ele nos compreende, então, não é pela lucidez de nosso diálogo, mas pelo humanitarismo que nossa informação lhe inspira. Mais uma vez o paternalismo é o método de compreensão para uma linguagem de lágrimas ou de mudo sofrimento.

A fome latina, por isto, não é somente um sintoma alarmante: é o nervo de sua própria sociedade. Aí reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida.

De Aruanda a Vidas Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo raízes, personagens roubando para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo, hoje tão condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, pela Comissão de Seleção para Festivais do Itamarati, pela crítica a serviço dos interesses oficiais, pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria. Este miserabilismo do Cinema Novo opõe-se à tendência do digestivo, preconizada pelo crítico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em automóveis de luxo; filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, e de objetivos puramente industriais. Estes são os filmes que se opõem à fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida e frágil, ou se mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que está enraizada na própria incivilização. Como se, sobretudo, neste aparato de paisagens tropicais, pudesse ser disfarçada a indigência mental dos cineastas que fazem este tipo de filmes. O que fez do Cinema Novo um fenômeno de importância internacional foi justamente seu alto nível de compromisso com a verdade; foi seu próprio miserabilismo, que, antes escrito pela literatura de '30, foi agora fotografado pelo cinema de '60; e, se antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político. Os próprios estágios do miserabilismo em nosso cinema são internamente evolutivos. Assim, como observa Gustavo Dahl, vai desde o fenomenológico (Porto das Caixas), ao social (Vidas Secas), ao político (Deus e o Diabo), ao poético (Ganga Zumba), ao demagógico (Cinco Vezes Favela), ao experimental (Sol sobre a Lama), ao documental (Garrincha, Alegria do Povo), à comédia (Os Mendigos), experiências em vários sentidos, frustradas umas, realizadas outras, mas todas compondo, no final de três anos, um quadro histórico que, não por acaso, vai caracterizar o período Jânio-Jango: o período das grandes crises de consciência e de rebeldia, de agitação e revolução que culminou no golpe de abril. E foi a partir de abril que a tese do cinema digestivo ganhou peso no Brasil, ameaçando, sistematicamente, o Cinema Novo.

Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entendeu. Para o europeu, é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro, é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto: e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem, mais agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência.

A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede: o Cinema Novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se pela violência de suas imagens em vinte e dois festivais internacionais.

Pelo Cinema Novo: o comportamento exato de um faminto é a violência, e a violência de um faminto não é primitivismo. Fabiano é primitivo? Antão é primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é primitiva?

Do Cinema Novo: uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo; foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino.

De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio, como também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador. O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação, mas um amor de ação e transformação.

O Cinema Novo, por isto, não fez melodramas: as mulheres do Cinema Novo sempre foram seres em busca de uma saída possível para o amor dada a impossibilidade de amar com fome: a mulher protótipo, a de Porto das Caixas, mata o marido; a Dandara de Ganga Zumba foge da guerra para um amor romântico; Sinhá Vitoria sonha com novos tempos para os filhos: Rosa vai ao crime para salvar Manuel e amá-lo em outras circunstâncias; a moça do padre precisa romper a batina para ganhar um novo homem; a mulher de O Desafio rompe com o amante porque prefere ficar fiel ao mundo burguês; a mulher em São Paulo S.A. quer a segurança do amor pequeno-burguês e para isto tentará reduzir a vida do marido a um sistema medíocre.

Explicação: Já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava explicar-se para existir: o Cinema Novo necessita processar-se para que se explique, à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome. O Cinema Novo não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente latino-americano: além do mais, porque o Cinema Novo é um fenômeno dos povos novos e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração. A integração econômica e industrial do Cinema Novo depende da liberdade da América Latina. Para esta liberdade, o Cinema Novo empenha-se, em nome de si próprio, de seus mais próximos e dispersos integrantes, dos mais burros aos mais talentosos, dos mais fracos aos mais fortes. É uma questão de moral que se refletirá nos filmes, no tempo de filmar um homem ou uma casa, no detalhe que observar, na moral que pregar: não é um filme mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público a consciência de sua própria miséria.

Não temos por isto maiores pontos de contato com o cinema mundial, a não ser com suas origens técnicas e artísticas.

O Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas consequentes de sua existência.

Glauber Rocha
Nova Iorque, Milão, Rio Janeiro – 1965
Carta Testamento

Getúlio Vargas

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Castro Alves: retrato falado do poeta (1999) - FILME COMPLETO * Bruno Garcia

CASTRO ALVES:RETRATO FALADO DO POETA
BRUNO GARCIA
Castro Alves: retrato falado do poeta (1999) - FILME COMPLETO

Historia do Cinema Brasileiro

Castro Alves, Retrato Falado do Poeta é uma ficção de 70 minutos com situações de documentário, protagonizada por Bruno Garcia. O filme recupera a atuação do escritor nas lutas pela proclamação da república e a abolição da escravatura, além de mostrar seu lado apaixonado e até mulherengo. O personagem-título viaja pelo Brasil com suas poesias e seus ideais, passando pela Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa viagem, o espectador também embarca.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Começou a recepção de poemas para o Primeiro Festival de Poesia Inédita para a Palestina * Fórum Itinerante de Participação Popular

Começou a recepção de poemas para o Primeiro Festival de Poesia Inédita para a Palestina

Caracas, 19 de agosto de 2024/Especial de Imprensa da FIPP. Poetas de todo o mundo começaram a enviar suas contribuições para o Primeiro Festival de Poesia Inédita para a Palestina, que acontecerá nos dias 4, 5 e 6 de outubro em diversos países, quando completaria um ano do Genocídio cometido pelo regime terrorista. de Israel contra o povo palestiniano.


A convocação foi do Fórum Itinerante de Participação Popular, organização que vive e se articula na Plataforma Internacional de Solidariedade à Causa Palestina, junto com grupos de poetas como Ofício Puro e Fecap.


A intenção do festival é publicar uma antologia de poemas que não foram publicados nem nas redes sociais, de poetas maiores de idade, em qualquer idioma, com a condição de que sejam acompanhados de tradução em espanhol.


A recepção dos poemas está marcada para o dia 7 de setembro e as bases são bem simples, além do que foi citado acima, que os textos estejam em Arial 14, com cuidado claro na ortografia e que os temas tratem da Palestina, seu processo de resistência, a sua resiliência, a sua esperança de soberania e liberdade. O e-mail disponível para recebimento e envio dos poemas é FestivalPoesiaPalestina@gmail.com .

Os organizadores do Festival antecipam que em todo o território nacional os poetas se unam com atividades, recitais e espaços de solidariedade.


“Apelamos tanto aos poetas consagrados como aos novos, porque todos temos direito à oportunidade de oferecer o nosso amor num poema aos homens, mulheres, rapazes e raparigas da Palestina”, comentou Hindu Anderi, coordenador do Fórum Itinerante de Participação Popular e da Plataforma de Solidariedade com a Causa Palestina.

Em outubro, o Festival acontecerá em auditórios, praças e comunidades. “Queremos que todos os que por aqui passam ouçam falar da Palestina, despertem a sensibilidade e acendam as chamas da solidariedade, de que o seu povo tanto necessita”, disse finalmente Hindu Anderi.

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