domingo, 3 de março de 2024

A Palestina ainda é o problema * John Pilger/UK

A Palestina ainda é o problema


Com quase 30 anos de diferença, os dois documentários de John Pilger sobre a Palestina tinham o mesmo título, A Palestina ainda é o problema. O que ele queria dizer era que, no decorrer de uma geração, uma grande injustiça permaneceu inalterada e urgente.

O seu filme de 1974 descreveu a fuga e a expulsão de quase um milhão de palestinianos, que se tornaram refugiados na sua própria terra – na criação do Estado de Israel em 1948, e depois como resultado da Guerra dos Seis Dias em 1967. 

«O que mudou», diz Pilger no seu regresso para filmar o seu documentário de 2002, «é que os palestinianos reagiram. Apátridas e humilhados durante tanto tempo, levantaram-se contra o enorme regime militar de Israel, embora eles próprios não tenham exército, tanques, aviões americanos, navios de guerra ou mísseis... Para [eles], a rotina dominante do terror, dia após dia , tem sido o controlo implacável de quase todos os aspectos das suas vidas, como se vivessem numa prisão aberta.'

A luta dos palestinos pelas suas terras é o tema de ambos os filmes. A perda de 78 por cento das terras em 1948 significou que só podiam reivindicar os restantes 22 por cento, que estavam ocupados por Israel. Eles lutaram principalmente com estilingues contra tanques e aviões durante a sua primeira revolta, a intifada de 1987, e levantaram-se repetidamente. 

Os recolheres obrigatórios, os controlos, os bloqueios de estradas e os postos de controlo que regem as suas vidas podem ser comparados com o apartheid na África do Sul, diz Pilger, que entrevista tanto palestinianos como israelitas, tornando o seu relatório infinitamente mais poderoso do que se tivesse dado voz simplesmente aos oprimidos. Na verdade, a maioria das suas testemunhas são israelitas. A entrevista mais longa é uma das mais reveladoras – com Dori Gold, uma figura influente no coração do poder israelita.

Um palestino fala sobre sua irmã, a primeira mulher-bomba, uma voluntária de ambulância de 28 anos que testemunhou mortes e ferimentos de pessoas. Ele está orgulhoso dela. Um pai israelense, Rami Elhanan, lembra-se de sua filha de 14 anos que foi morta por um ataque suicida. “É preciso reconhecer o desespero daqueles que cometem tais atrocidades”, diz ele. 'Você tem que se perguntar: você contribuiu de alguma forma para esse desespero. O homem-bomba foi uma vítima, assim como minha garota.

Com Israel controlando a Cisjordânia ocupada através de assentamentos judaicos que são ilegais sob o direito internacional, Pilger visita um desses assentamentos. Ele passa por um posto de controle militar e por uma estrada cercada por arame farpado eletrificado, que foi construída para uso exclusivo de colonos judeus e soldados israelenses – um emblema impressionante do apartheid, diz ele – antes de descobrir o espetáculo surreal do que parece ser um subúrbio tranquilo de classe média, completo com casas com antenas parabólicas em estradas arborizadas e limpas. 

Uma das vozes mais reveladoras é a de um soldado, Yishai Rosen-Zvi, que se recusou a servir na Cisjordânia ocupada e descreve “o enorme bluff do establishment israelita”, acrescentando: “[Cada] crítica às suas políticas é chamado anti-semitismo, [quando] criticar a política do seu país é a única coisa patriótica que se pode fazer.'

Suas palavras são proféticas. Uma campanha orquestrada dirigida pelos sionistas foi montada contra A Palestina ainda é o problema, principalmente nos Estados Unidos, por grupos que não tinham visto o filme. Cada e-mail enviado tinha um tema genérico de “anti-semitismo” – uma versão inicial dos “bots” das redes sociais. Pilger e sua família receberam ameaças de morte. 

Na Grã-Bretanha, a Comissão Independente de Televisão, então reguladora da televisão comercial, conduziu um inquérito de três meses e concluiu que a Palestina ainda é a questão era “justa e equilibrada” e não tinha violado a cláusula de “devida imparcialidade” na Lei de Radiodifusão de 1990. . Elogiou o rigor histórico do filme, juntamente com o “cuidado e meticulosidade com que foi pesquisado”. A Palestina ainda é o problema ganhou vários prêmios internacionais.

Prêmios: A estatueta de Chris na divisão Guerra e Paz, Chris Awards, Columbus International Film & Video Festival, Ohio, 2003; Vencedor, categoria Guerra e Paz, Festival Internacional de Cinema de Vermont, 2003; Certificado de Mérito, Chicago International Television Awards.

A Palestina ainda é o problema foi uma produção da Carlton Television para a ITV, transmitida pela primeira vez na ITV1, 16 de setembro de 2002

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

A Batalha de Argel - Gilo Pontecorvo

A BATALHA DE ARGEL 
*
GILO PONTECORVO
Produzido em 1966, A Batalha de Argel é um filme ítalo-argelino dirigido por Gillo Pontecorvo, misturando ficção e documentário. Ele trata da batalha que se deu em 1957 na cidade de Argel, capital da Argélia, em meio à guerra de libertação nacional que este país tratava para conquistar sua independência da França, que finalmente ocorreu em 1962. O filme mostra as atrocidades cometidas pelas tropas imperialistas francesas, bem como as táticas da guerrilha urbana da Frente Nacional de Libertação da Argélia.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

BRIZOLA E CAROLINA DE JESUS/CAROLINA MARIA DE JESUS * Fundação Claudino Silva/RJ

BRIZOLA E CAROLINA DE JESUS

Entre tantas histórias de Brizola, essa com Carolina de Jesus merece ser muito compartilhada - trago do Memorial Luiz Carlos Prestes.

No livro "Casa de Alvenaria" (1961), Carolina de Jesus registra sua passagem por Porto Alegre e o encontro com Leonel Brizola e sua esposa Neuza Goulart na turnê de divulgação do seu primeiro livro "Quarto de Despejo". Datada em 02 de dezembro de 1960:

"Quando a Dona Neuza Goulart Brizola surgiu fiquei observando-a atentamente. Foi a primeira esposa de governador a receber-me depois que eu saí da favela. Conversando com Dona Neuza percebi que o majestoso palácio que ela habita não lhe envaidece. Achei lindo ela dizer: “Tenho pavor desta casa. O meu esposo é político. E os políticos não têm amigos”. Ela despediu-se. Fui falar com o Dr. Leonel Brizola noutra sala. Perguntei-lhe como vai indo o desenvolvimento do estado. O Dr. Leonel Brizola pediu-me para não envaidecer e não desprezar os pobres:

- 'Você deve voltar periodicamente a favela para não perder sua autenticidade. Você vai visitar as favelas de Porto Alegre e dizer aos favelados que eles precisam e devem estudar. Faça-me esse favor. O meu sonho é acabar com o analfabetismo no estado. O meu carro está a seu dispor”.

Dei uma risada e comentei:
- “Que honra para mim! Estava habituada a andar só de Rádio-Patrulha”.
(...)
Fiquei abismada quando vi as favelas do Rio Grande do Sul. As casas são de tábuas bem construídas. Tem muita água e vários tanques. As mulheres não brigam por causa da água. Algumas pessoas da favela conheciam-me de nome. (...) O que impressionou-me na favela de Porto Alegre foi a quantidade de água. Quando abre a torneira em dois minutos enche-se uma lata. As mulheres lavam as roupas com água canalizada desinfetada com cloro.
(...)
Fomos na Câmara ver o II Congresso Estadual de Vereadores. Estava empolgante. O Governador Leonel Brizola estava presente. Eu disse-lhe:
- “O senhor está me perseguindo”.
Ele sorriu comentando:
- “Não, Carolina. Quem está perseguindo-me é você. Eu cheguei na frente”.

O presidente interrompeu os debates para receber-me. E apresentou-me aos presentes, convidando-me para me dar parte nos debates. Perguntou-me qual é a causa das favelas nas grandes cidades. Respondi:
- “Nós os favelados somos os homens do campo. Devido os fazendeiros nos explorar ilimitadamente deixamos as favelas e vamos para as cidades. E nas grandes cidades, os que vivem melhor são os cultos. Nós os incultos encontramos dificuldades de vida. Mesmo trabalhando na cidade como assalariado, encontramos dificuldades para viver porque o salário não cobre as despesas. Não há possibilidade de pagar uma residência decente. Temos que habitar as terras do Estado.
Fui aplaudida. Meu olhar avuou para o rosto do Dr. Leonel Brizola. Ele estava sorrindo. Autografei alguns livros para os vereadores”.

Fonte: JESUS, Carolina de. Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo, 1961. p. 89-93.
Foto: Correio da Manhã, 19 de março de 1961.
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sábado, 9 de setembro de 2023

DESABAFO DE UM ARTISTA CANSADO * Luiz Carlos Checchia - SP

 DESABAFO DE UM ARTISTA CANSADO

Luiz Carlos Checchia, historiador, dramaturgo e diretor teatral.SP


Depois de muito tempo, a Lei Aldir Blanc entra em tramitação no Congresso Nacional. Todos devem se lembrar dela, surgiu durante a pandemia como forma de atender o setor da produção artístico-cultural, um dos mais atingidos pela catástrofe do COVID-19.


Mas como a vida de artista no Brasil não é mole, 30% do valor destinado à lei foi, por ordem do governo, destinada para o PAC, que é o Programa de Aceleração do Crescimento. Trata-se de um conjunto de ações que visam, como o nome diz, induzir mais velocidade ao crescimento econômico, sendo um de seus pilares a construção civil. E é assim que a Lei Aldir Blanc viu parte de seus recursos serem destinados à construção de prédios.


Alguém poderia pensar que seria algo bacana, mas o fato é que essa subtração distorce completamente o sentido da Aldir Blanc. Além disso, a Lei Aldir Blanc colocará para circular 3 bilhões de reais, o que parece muito, mas lembrem-se que só para agradar o centrão, o governo Lula já liberou mais de 20 bilhões em emendas parlamentares. E isso sem contar a distribuição de ministérios e secretarias. Enfim, há muito mais de onde o governo poderia tirar essa verba para o PAC, ao invés de o fazer dos recursos que iriam diretamente para a produção artística.


Pois bem, com mentiras contadas, tais como dizer que houve “amplos diálogos com os artistas”, “que foi decisão tomada democraticamente” etc, o governo e seus aliados, como a deputada Jandira Feghali, fizeram a proeza de diminuir mais ainda os poucos recursos da Lei Aldir Blanc. A nós, artistas, pouco restou senão reclamarmos o quanto foi possível, mas sem qualquer efetividade.


Mas essa situação tem como elemento de fundo um ponto pouco debatido: a falta de qualquer peso político por parte de artistas, técnicos e produtos culturais. Para explicar o que quero dizer, sugiro que deem uma olhada no que ocorre nos EUA, nesse momento. A precarização do setor fez com que os sindicatos de atores e de roteiristas parassem a produção no país. Filmes e séries estão cada vez mais comprometidos e a indústria cultural a cada dia vê suas “máquinas” parando. Sempre imaginamos que os artistas nos EUA ganham muito dinheiro, mas a verdade é que o número de “astros de Hollywood” é minúsculo se comparado ao número de artistas e técnicos envolvidos. Mas o que é impressionante é que lá, mesmo os “astros” que assinam contratos milionários, estão nas ruas, nas passeatas e nos ato, Susan Sarandon, Daniel Radcliffe e outros estão em manifestações, segurando placas e usando camisetas com dizeres de protestos, todos lutando pelo bem comum das categorias.


Mas aqui, no Brasil… Ah, que lástima. Nosso SATED, atravessa uma luta fratricida, a SBAT quase não opera, a Cooperativa Paulista bambeia, as demais organizações associações, movimentos etc, nenhuma expressa força política capaz de fazer qualquer pressão. Infelizmente, apesar de sermos um país que adora assistir televisão com suas novelas, minisséries, séries etc, com tantos atores e atrizes famosos, não conseguimos organizar todos esses trabalhadores. Particularmente, sou sindicalizado e integro a SBAT, imaginando que um dia, quem sabe, um estalo acontece, uma epifania, um surto de bom senso, sei lá, e então toda essa massa de artistas e técnicos irá compor suas organizações, fortalece-las, impulsioná-las para frente e para cima.


Mas isso passa também por, aqueles que atualmente dirigem tais entidades ou as disputam com unhas e dentes estabelecerem entre si algum tipo de pacto, acordo, armistício para que elas possam canalizar suas forças para seu motivo de existência: serem o instrumento político de categorias profissionais.


Muita gente, como eu, gostaria que tais entidades fossem a ponta de lança da revolução, outros, que se tornassem espaços de novos valores identitários, mas o fato é que sequer conseguem fazer o básico, que é defender os trabalhadores e trabalhadoras que abrigam.


Enquanto isso, os patrões, as emissoras, as produtoras, os governos e tantos mais dilapidam uma lei aqui, um trabalho ali, um cachê acolá, sobrando unicamente aos pobres trabalhadores a certeza de ficarem um tanto mais pobres.


A Lei Aldir Blanc, assim dilapidada, irá agora para o Senado, alguns ainda sonham em reverter essa situação lá, mas o fato é que é praticamente impossível, pois o acordo entre governo e congressistas parece já bastante firmado. E convenhamos, esses 30% para construção civil, num ano que antecede eleições, significa diversas obras acontecendo pelo Brasil que serão utilizadas como propaganda de diversos candidatos.


Eu, em minhas esperanças mais ingênuas, espero pelo dia em que artistas possam deixar de lado suas diferenças para passarem a lutar organizadamente pelos seus direitos. Num país em que novelas, séries e programas de TV são o pilar da cultura nacional, é impossível que unidos não possamos fazer valer algo. 

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terça-feira, 8 de agosto de 2023

O NORDESTE INDEPENDENTE * Bráulio Tavares / Ivanildo Vila Nova

 O NORDESTE INDEPENDENTE

Bráulio Tavares / Ivanildo Vila Nova


A música “Nordeste Independente", um bem-humorado e utópico manifesto contra a discriminação sofrida pelo nordeste, gerou polêmicas no início dos anos 80. A música foi composta pelo escritor, compositor e roteirista, Bráulio Tavares e por Ivanildo Vilanova, um dos poetas repentistas mais conhecidos e respeitados do Brasil. A obra foi gravada por Elba Ramalho na década de 80, que aproveitou apenas seis, das, pelo menos, 15 estrofes escritas pelos poetas.

Letra da Música: 
NORDESTE INDEPENDENTE
Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares 

Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso for feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser "nordestinense”
a bandeira de renda cearense
“Asa Branca" era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fez
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
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segunda-feira, 31 de julho de 2023

JOÃO CAETANO * Fundação Claudino Silva - FCS/RJ

JOÃO CAETANO
João Caetano dos Santos
 (Itaboraí, RJ 27/1/1808 - Rio de Janeiro, RJ 24/8/1863) foi um ator e empresário teatral brasileiro. Além de ser tradicionalmente conhecido como o maior ator de sua época, Caetano é considerado ainda o primeiro teórico da arte dramática no país e responsável pela profissionalização do teatro, com suas iniciativas no palco ou na administração de companhias que atuavam tanto na capital como nas províncias.

Sua atuação o transformaria no impulsionador do teatro brasileiro como uma atividade profissional contínua, numa época em que as companhias teatrais lusitanas monopolizavam os palcos brasileiros, (isso desde a chegada da família real portuguesa em 1808), conseguindo superá-las em fama e prestígio.

Antes de iniciar sua carreira, João Caetano foi cadete e serviu na guerra da Cisplatina. De acordo com o reconhecimento de críticos seus contemporâneos, a experiência de guerra teria ajudado na montagem de cenas militares, e ao mesmo tempo moldou seu caráter, fazendo-o encarar a vida teatral como um campo de batalha, onde se lutava tanto por idéias como por espaço.

A estreia de João Caetano como ator aconteceu em 1831 na peça "O Carpinteiro da Livônia". No ano seguinte, conheceu a bailarina e atriz Estela Sezefreda, que se tornou sua parceira nos palcos e logo depois sua companheira, e com quem se casaria em 1845.

Apenas dois anos após sua estreia, ocupa o teatro de Niterói e funda a Companhia Nacional João Caetano, exercendo as funções de empresário, diretor e ator. Sua companhia teatral apresentou grandes autores trágicos, cômicos, melodramas e dramas burgueses. Merece destaque a montagem de "O príncipe amante da liberdade" ou "A independência da Escócia", peça em que utilizou apenas atores brasileiros, gesto que rompia com a tradição na qual os artistas, a linguagem e os repertórios eram rigorosamente reproduzidos como em Portugal. Autodidata, tinha predileção pela tragédia, mas também representou papéis cômicos marcantes, sendo o primeiro a apresentar a peça "O Juiz de Paz na Roça" de Martins Pena, isso em 1838.

Caetano escreveu ainda dois livros sobre a arte de representar: "Reflexões Dramáticas", de 1837, e "Lições Dramáticas", de 1862. Foi o primeiro artista brasileiro a entender a necessidade de uma formação para os atores, tomando a iniciativa de construir e administrar uma Escola de Arte Dramática no país, totalmente gratuita, inspirado por uma experiência que teve em 1860, após visitar o Conservatório Real da França. Também promove a criação de um júri dramático, para premiar a produção nacional. João Caetano faleceu no dia 24 de agosto de 1863, no Rio de Janeiro.


Bibliografia:
João Caetano. Disponível em:  http://historiadoteatroufpel.blogspot.com.br/2009/04/joao-caetano.html >. Acesso: 31/03/13.
João Caetano dos Santos. Disponível em: < http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/JoaCaeSa.html>. Acesso: 31/03/13.
João Caetano. Disponível em: < http://www.spescoladeteatro.org.br/enciclopedia/index.php/Jo%C3%A3o_Caetano >. Acesso: 31/03/13.
João Caetano. Disponível em: < http://www.algosobre.com.br/biografias/joao-caetano.html >. Acesso: 31/03/13.
Arquivado em: Biografias
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terça-feira, 25 de julho de 2023

SOLANO TRINDADE * João Costa Batista/Facebook

SOLANO TRINDADE
Árvore da Lembrança
João Costa Batista/Facebook

Nasceu no dia 24 de julho de 1908, no bairro de São José, em Recife-PE, Francisco Solano Trindade.
Filho do Sapateiro Manoel Abílio e da Doméstica Emerenciana Quituteira. A miscigenação está presente nas Origens Étnicas do Poeta: Neto de Negro e Branca, pelo lado Paterno; e Negro e Índia, do lado Materno.
Estudou no Liceu de Artes e Ofícios da Capital Pernambucana, tendo Concluído o equivalente ao Ensino Médio atual.

Desde cedo, Estabeleceu contato com a Cultura Popular e o Folclore, levado pelas mãos do Pai que, nos dias de folga, Dançava Pastoril e Bumba-Meu-Boi nas ruas do Recife. O Carnaval, suas Figuras, o Maracatu, e o Frevo Fascinavam o Menino. A pedido da Mãe, Analfabeta, Lia Novelas, Literatura de Cordel e Poesia Romântica, que ambos apreciavam.

Já adulto, o Poeta se casa em 1935 com Maria Margarida – Terapeuta Ocupacional e Coreógrafa – com quem teve Quatro Flhos.

A Década de 1930 é marcada em todo o Mundo pela Ascensão do Nazismo e do Fascismo, que iriam Controlar quase toda a Europa a partir da Deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939. A Polarização Ideológica entre Direita e Esquerda contamina as Discussões sobre Arte e Literatura. E a Noção Mítica de "Raça Superior", Oriunda no Cientificismo do Século XIX, impulsiona fortemente a Discriminação Racial existente no Brasil desde a Colonização. O Autoritarismo Segregador defendido pelo Discurso Nazi-Fascista se espalha pelo País a partir da crescente Pregação do Partido Integralista, Dirigido pelo também Escritor Plínio Salgado.

Em contrapartida, dá-se o Fortalecimento na Imprensa Negra e a Criação da Frente Negra Brasileira, que também se Organiza em forma de Partido Político e Fortalece a Resistência dos Afro-Descendentes em sua Luta pela obtenção da Cidadania Plena, a começar pelo Direito à Educação, passados pouco mais de 40 anos de Vigência da Lei Áurea.

Nesse período, Solano Trindade participa em Recife do I Congresso Afro-Brasileiro, Organizado por Gilberto Freyre, que Reúne dezenas de Intelectuais voltados para a Discussão da Contribuição Cultural da Diáspora Africana em nosso País. Participa também do II Congresso Afro-brasileiro, realizado posteriormente em Salvador.

Em 1936, Entusiasmado com os Movimentos em Prol da Consciência Negra, que se espalhavam nas principais Cidades do País, Funda a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileira, Juntamente com o Poeta Ascenso Ferreira, o Pintor Barros e o Escritor José Vicente Lima. Esse Órgão tinha como Objetivo, dentre outros, Promover a Pesquisa da Afro-descendência na Cultura e na História, buscar a Expressão Afro-Brasileira na Literatura e nas Artes em geral, além de Promover a Divulgação de Intelectuais e Artistas Negros.

Em 1936, Estreia na Literatura com a Publicação de Poemas negros. Editada em Recife, a Coletânea de Solano Trindade Polemiza com o Livro Homônimo do também Nordestino Jorge de Lima, Lançado no mesmo ano e trazendo a Público o discutido Poema "Nêga Fulô".

Na Década seguinte, depois de passar por Belo Horizonte e Porto Alegre, fixa Residência no Rio de Janeiro, onde se Integra aos Círculos Literários e Culturais e trava conhecimento com outros Artistas Afro-descendentes.

Em 1944, lança seu Segundo Livro, Poemas d’uma vida simples, que obteve Boa Repercussão junto à Crítica da Época. Amante devotado das Formas Populares de Representação, o Poeta Assiste à Criação do Teatro Experimental do Negro, fundado em 1944, por Abdias Nascimento.

Em 1950, Solano Trindade Funda em Caxias, na Baixada Fluminense, ao lado da Esposa, Margarida Trindade, e do Sociólogo Edison Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro, que contava com um Elenco Formado por Domésticas, Operários e Estudantes e tinha como Projeto Estético-Ideológico: "Pesquisar na Fonte de Origem e devolver ao Povo em Forma de Arte.
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quinta-feira, 13 de julho de 2023

AGORA A CULTURA TAMBÉM TEM "DIA NACIONAL DE LUTA" * Fundação Claudino José da Silva - BR

AGORA A CULTURA TAMBÉM TEM
 "DIA NACIONAL DE LUTA"

A partir de agora, todo o dia 4 de maio será lembrado como o Dia Nacional de Luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Cultura. A lei que institui a data foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada, ontem, 11/7, no Diário Oficial da União.

Esse dia foi escolhido em memória do compositor e artista Aldir Blanc e do ator e comediante Paulo Gustavo, que morreram vítimas da covid-19 na mesma data, mas nos anos de 2020 e 2021, respectivamente.

Na data, anualmente, devem ser realizadas ações culturais que promovam a conscientização sobre a importância do setor para o desenvolvimento social, econômico e para o exercício da cidadania, além preservar a memória de povo, fortalecer as identidades, promover a diversidade, gerar renda e emprego.

A nova lei prevê ainda que, na data, sejam lançados programas de apoio à formação técnico-profissional no setor cultural e outras ações que ampliem as possibilidades de trabalho para profissionais que atuam no setor.

Estão previstas também ações de acesso a direitos culturais e a divulgação de dados estatísticos relacionados a cultura e ao fazer cultural.
Aldir Blanc

Letrista de mais de 600 músicas, e muitos sucessos como O Bêbado e a Equilibrista, com João Bosco, e Resposta ao Tempo, com Cristovão Bastos, Aldir Blanc foi médico psiquiatra de formação e exerceu a profissão até os 28 anos de idade. Como compositor e letrista, foi um dos maiores nomes da musica popular brasileira, e eternizou ainda boas histórias em crônicas e livros.

Nascido no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, em 1946, viveu até os 73 anos de idade, quando foi internado e diagnosticado com covid-19, que agravada pela diabetes, uma pneumonia e uma infecção urinária, o levaram à morte em 4 de maio de 2020.

O músico e compositor deu nome a uma lei aprovada pela Câmara dos Deputados em 26/5/2020: a Lei Emergencial da Cultura (PL 1075/2020), publicada em junho e chamada de Lei Aldir Blanc.
Paulo Gustavo

O ator, diretor e roteirista era fluminense de Niterói e construiu uma carreira cultural, passando pela televisão, pelo cinema e teatro, onde ganhou fama com o monólogo Minha Mãe É uma Peça, escrita e interpretada pelo artista, que construiu a personagem Dona Hermínia, com base na convivência com a própria mãe.

No auge da carreira, foi diagnosticado com covid-19, passou por várias terapias para amenizar os sintomas da doença, mas uma embolia pulmonar agravou o quadro e ele morreu em 4 de maio de 2021. Deixou o marido xxxx e dois filhos pequenos.

Em 2021, a Lei Paulo Gustavo foi criada para socorrer o setor da cultura (Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022), prevendo repasses a estados, municípios e ao Distrito Federal para ações emergenciais, mas vetada pelo governo Bolsonaro.

Com a volta do Ministério da Cultura e a prioridade dada pelo governo federal a esse setor, a lei passou a valer a partir de 12 de maio , quando o presidente Lula assinou o decreto de regulamentação, em cerimônia em Salvador.

domingo, 9 de julho de 2023

Zé Celso e Silvio Santos * Luciano Fedozzi - RS

Zé Celso e Silvio Santos

A grandeza de uma pessoa também pode ser medida pela pequenez de outras, e não apenas pelos feitos da primeira, quem ela era e o que fez na vida. A trágica morte de Zé Celso – causada por um aquecedor barato em um apartamento simples de classe média baixa – revela o caso emblemático do lugar que a cultura crítica ocupou e ainda ocupa na estratificação selvagem da sociedade brasileira. 


Zé Celso liderou a criação do Teatro Oficina, erguendo-o literalmente do chão em um terreno cujo proprietário representa bem aqueles setores incultos forjados na extração de riquezas sem qualquer compromisso com o destino da sociedade e do país.

 Uma das cenas mais melancólicas, mas também ilustrativas – daquelas que valem a pena mostrar em sala de aula para refletir sobre o capitalismo selvagem do Brasil – é aquela registrada na discussão entre Silvio Santos e Zé Celso sobre o mencionado terreno onde o teatro Oficina está localizado, uma pequena construção estreita e profunda tombada em todas as instâncias da Federação. 

Nela, o septuagenário e riquíssimo Silvio Santos, que pleiteia há décadas a área para a construção de três torres imobiliárias no bairro Bexiga, a fim de engordar ainda mais a sua conta e a da família, aparece como um ser humano pequeno diante do seu pobre contendor, um dos maiores dramaturgos do Brasil. 

O frame é claro, sem nenhuma consideração sobre a Função Social da Cidade e da Propriedade, previstas no Estatuto das Cidades, idealmente concebido para tornar nossas metrópoles menos hostis à vida. 

Não fosse a convicção irredutível do poder do dinheiro a qualquer custo, uma pessoa minimamente moralizada sentiria vergonha dessa cena patética entre a riqueza e a pobreza, entre objetivos e sentidos da vida tão díspares. 

O próprio Silvio Santos em pessoa naquela cena nos dá a ideia de um representante paradigmático de um setor da burguesia inculta, voraz e mesquinha, que se arvorou ao poder novamente nos últimos anos, como o faz de quando em quando em nossa história, dessa vez sem nenhuma vergonha. 

Na cena, a pequenez e a grandeza de cada um e do que representam estão ali instaladas, prontas para serem avaliadas por cada de nós, dependendo dos óculos, da perspectiva e do que desejamos como sociedade. 

Ao Zé Celso, resta-nos agradecer também por isso, por tornar pública essa face do Brasil que nunca desaparece e que nos leva a pensar sobre o que faz os pequenos e grandes homens. Evoé, Zé Celso!

Luciano Fedozzi – Professor de Sociologia da UFRGS, Pesquisador do Observatório das Metrópoles
MAD RODRIGUES - SP

quinta-feira, 15 de junho de 2023

O SERTANEJO UNIVERSITÁRIO É PRODUTO DO LADO MAIS SOMBRIO DO AGRONEGÓCIO * Tiago Cardoso/Geógrafo/FCS

O SERTANEJO UNIVERSITÁRIO É PRODUTO DO LADO MAIS SOMBRIO DO AGRONEGÓCIO

A hegemonia do sertanejo universitário no cenário musical brasileiro atual não é produto do talento dos cantores do aludido gênero musical, mas de uma estrutura econômica por trás destes cantores.

O sertanejo surgiu no Brasil em meados do século XX, onde seus artistas cantavam as agruras e os lamentos do campo e da vida rural. Com o processo de urbanização do país em decorrência do desenvolvimento industrial, a música sertaneja tradicional sofreu uma paulatina transformação e já nos anos 1990, o romantismo urbano suplantou a beleza e a pureza do autêntico sertanejo do campo.

Todavia, o que turbinou o sertanejo universitário foi o investimento milionário do agronegócio, que quis criar a imagem do homem de bem e do campo que sustenta a cidade, quando, na verdade, 75% dos alimentos que chegam às mesas dos brasileiros são oriundos da agricultura familiar, ou seja, do pequeno lote de terra. O agronegócio, basicamente, volta-se para exportação, o que é de conhecimento público e notório.

O filme “os filhos de Francisco”, que retrata a heroica saga da dupla sertaneja Zezé di Camargo, quis passar a imagem da meritocracia da vida no campo, fazendo as pessoas acreditarem que as ligações telefônicas de um pai abnegado por seus filhos às rádios provocaram o seu sucesso. Milhões de pessoas viram este filme nas telas de cinema. Entretanto, isto fica apenas no cinema, não condiz com a realidade.

O que ocorre na indústria fonográfica é o famigerado “jabá”, que é uma importância em dinheiro que os produtores pagam para veicularem suas músicas. A empresária da polêmica cantora Anita declarou em entrevista que viralizou que, enquanto tenta pagar um “jabá” para tocar as músicas de seus artistas numa rádio, o agronegócio já as comprou. O resultado é que, em 2021, das dez músicas mais tocadas no aplicativo de música spotify, nove eram sertanejos universitários, com suas músicas cantadas no mesmo timbre e com as mesmas letras: balada, bebedeira e traição.

Ademais, existe um lobby fortíssimo do agronegócio na política nacional. Para que se tenha uma ideia, em 2014, a JBS patrocinou a campanha de 11 partidos políticos e a bancada ruralista fez 24 dos 27 senadores eleitos.

Isto mesmo que vocês leram. Não há uma bancada roqueira, funkeira, pagodeira, etc, mas há uma bancada ruralista, que possui como trilha sonora o sertanejo universitário.

Tudo isto produz uma indústria cultural, a famigerada “modinha”. Não é um sucesso orgânico, natural, é produzido.

Como vocês acham que qualquer dupla sertaneja, hodiernamente, já possui ônibus, jatinhos e milhares de seguidores em suas redes sociais logo no começo de suas carreiras? Fruto de seus talentos? Não. Fruto do investimento pesado do agronegócio, que vê no sertanejo universitário uma forma de alienar as pessoas com letras açucaradas e despolitizadas, ao passo que violam a legislação ambiental, expandem a fronteira agrícola, invadem terras indígenas, promovem o garimpo e assassinam os povos nativos. Vocês acham que os cantores sertanejos são bolsonaristas por acaso?

E o que vemos hodiernamente é o fim do autêntico sertanejo, da música que retratava a vida do campo, dando lugar a uma música urbana, cada vez mais pop e com riffs que lembram mais um pop rock medíocre.

Ademais, o agronegócio compra espaço na mídia (o agro é pop, lembram?), promovem feiras pecuárias, onde promovem duplas sertanejas de “bons moços”, e agro shows, onde dão visibilidade aos cantores sertanejos. Mais que isto, compram emissoras de TV e colocam suas músicas em novelas. Quando um artista de outro gênero poderia ter este privilégio? Um cantor de samba oriundo do morro, um roqueiro de uma banda de garagem? Por mais que tenham um talento superior, não conseguirão emergir na superfície da indústria fonográfica.

Embora sejam esmagadoramente reacionários e “contrários” à polêmica e desconhecida (inclusive por eles), são os cantores que mais recebem recursos públicos, pois, como veio à tona, sabe-se que recebem dinheiro de prefeituras pequenas que equivalem ao orçamento anual de suas pastas de saúde e educação.

Por todas as razões expostas anteriormente, é uma luta desigual com os demais gêneros, não pelo talento, o qual poucos possuem, mas pelo investimento extraordinário do agronegócio.

Mais que isto, a dobradinha agronegócio/sertanejo universitário está promovendo um morticínio da cultura, uma vez que festas tradicionais do São João nordestino estão tomadas por estas duplas, ao passo que o forró perde espaço, só para citar um exemplo. Não é diferente em outras festas tradicionais que nada tem a ver com o gênero, tal como o carnaval.

Espero que, com o que veio à tona, este assalto à cultura e ao dinheiro do contribuinte, a máscara destes falsos moralistas e pseudocantores seja retirada de modo que possamos expor a sujeira por trás deste sucesso.

Particularmente, não escuto destes cantores, pois sei que cada clique representa uma parcela do morticínio cultural e da devastação do meio ambiente.

Tiago Cardoso/Geógrafo/FCS